Um em cada quatro portais perdeu mais de 20% da audiência, aponta Ajor
Resumos gerados por IA reduzem acessos diretos aos sites de notícias e ampliam debate sobre direitos autorais e remuneração do conteúdo jornalístico
O avanço das ferramentas de inteligência artificial (IA) está provocando mudanças no comportamento dos usuários na internet e começa a afetar diretamente o modelo de financiamento do jornalismo profissional no Brasil. Resumos produzidos por sistemas de IA em mecanismos de busca têm reduzido a necessidade de acesso direto aos sites de notícias, comprometendo uma das principais fontes de audiência e receita dos veículos jornalísticos.
A mudança ganhou força principalmente a partir de 2024, com a expansão dos recursos de respostas geradas por inteligência artificial nos buscadores. Em vez de acessar uma reportagem para encontrar determinada informação, parte dos usuários passa a consumir o resumo apresentado diretamente na página de resultados.
Essa transformação representa um desafio para veículos que dependem do tráfego para atrair publicidade, assinantes e outras formas de receita.
Queda de audiência preocupa veículos digitais
Dados da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que reúne 152 veículos online no país, mostram o impacto da mudança. Segundo levantamento citado pela Agência Brasil, um em cada quatro portais associados perdeu mais de 20% da audiência em 2025.
A redução do tráfego proveniente dos mecanismos de busca preocupa especialmente veículos cujo modelo de negócios depende da audiência para comercialização de publicidade.
Para a diretora de Relações Institucionais da Ajor, Carla Egydio, a crise se soma a um processo anterior de migração da publicidade para grandes plataformas digitais.
A entidade avalia que os resumos produzidos por IA aprofundam as dificuldades financeiras enfrentadas pelo setor jornalístico.
IA também levanta preocupação sobre qualidade da informação
Além do impacto econômico, especialistas apontam possíveis consequências para a qualidade e a integridade da informação.
Os resumos produzidos por inteligência artificial nem sempre apresentam todo o contexto de uma reportagem. Com isso, informações podem ser apresentadas de maneira reduzida ou descontextualizada.
Outro ponto levantado pela Ajor é o risco de reprodução literal de conteúdos jornalísticos, situação que pode caracterizar violação de direitos autorais.
A preocupação ganha relevância em um cenário marcado pela disseminação de informações falsas e pela crescente utilização de ferramentas automatizadas para produção e distribuição de conteúdo.
Marco Regulatório da IA prevê remuneração por conteúdo
No Congresso Nacional, uma das principais discussões envolve o PL 2338/2023, projeto que trata do Marco Regulatório da Inteligência Artificial.
O texto em tramitação na Câmara prevê mecanismos relacionados à remuneração pelo uso de obras protegidas por direitos autorais, incluindo conteúdos jornalísticos utilizados por sistemas de inteligência artificial.
A proposta, entretanto, não avançou no primeiro semestre de 2026. Segundo informações da Câmara, uma eventual votação deverá ocorrer depois das eleições de outubro, dependendo da apresentação do relatório pelo deputado Aguinaldo Ribeiro, relator do projeto.
A comissão especial responsável pela análise da proposta não se reúne desde novembro de 2025.
Jornalistas defendem remuneração pelo uso do conteúdo
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem defendido a aprovação do projeto e pressionado pela criação de regras que garantam remuneração aos produtores de conteúdo jornalístico.
A entidade também critica a ausência, no texto atual, de mecanismos específicos que permitam identificar quais conteúdos foram utilizados para treinar modelos de inteligência artificial.
Para representantes dos jornalistas, a discussão envolve não apenas o uso tecnológico dos conteúdos, mas também a sustentabilidade econômica da produção jornalística.
Empresas de tecnologia contestam regras
As empresas de tecnologia, por outro lado, criticam as regras previstas no projeto.
Organizações do setor argumentam que determinadas exigências relacionadas aos direitos autorais poderiam dificultar o treinamento de novos modelos de inteligência artificial desenvolvidos no Brasil e afetar investimentos em infraestrutura digital.
O debate coloca de um lado veículos de comunicação e produtores de conteúdo, que defendem remuneração pelo uso de suas obras, e, de outro, empresas de tecnologia que alertam para possíveis impactos sobre o desenvolvimento da IA.
Cade investiga impactos sobre o mercado de mídia
Enquanto o Congresso debate a regulamentação, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) também acompanha o impacto das ferramentas de inteligência artificial sobre o mercado de mídia.
Em abril de 2026, o órgão abriu investigação sobre a atuação do Google e os possíveis efeitos do uso de conteúdos jornalísticos em ferramentas de IA sem remuneração aos veículos responsáveis pela produção.
A investigação busca avaliar se houve eventual abuso de posição dominante no mercado.
Grandes veículos já fecharam acordos com empresas de IA
Paralelamente às discussões regulatórias, alguns grandes grupos de comunicação passaram a negociar diretamente com empresas de tecnologia.
A Folha de S.Paulo e o O Estado de S. Paulo fecharam acordos privados com empresas de inteligência artificial. No caso da Folha, o acordo com a OpenAI ocorreu depois de o jornal processar a empresa pelo uso de seus conteúdos jornalísticos.
Esses acordos indicam uma possível mudança no relacionamento entre empresas de tecnologia e organizações jornalísticas, com negociações sobre licenciamento e utilização de conteúdos.
Desafio para o futuro do jornalismo
O avanço da inteligência artificial coloca o jornalismo diante de uma transformação estrutural.
A tecnologia pode facilitar o acesso à informação e oferecer novas ferramentas para jornalistas e leitores, mas a redução do tráfego direto aos sites pode comprometer a receita necessária para financiar repórteres, fotógrafos, editores, equipamentos, apuração e jornalismo investigativo.
O desafio, portanto, é encontrar um equilíbrio entre inovação tecnológica, acesso à informação, proteção dos direitos autorais e sustentabilidade econômica dos veículos de comunicação.
Enquanto o Congresso discute novas regras e órgãos reguladores avaliam os impactos das plataformas, o setor jornalístico busca alternativas para garantir que a produção de informação profissional continue economicamente viável no ambiente digital.
Fonte: Agência Brasil.
