Negociações do Brics terminam sem acordo e expõem divisões entre países
Negociações do Brics na Índia terminam sem declaração conjunta
Diplomatas do grupo se reuniram dois dias em Nova Delhi
Os principais diplomatas dos países do Brics, incluindo o Irã e Emirados Árabes Unidos, não conseguiram emitir declaração conjunta nesta sexta-feira (15), após reunião de dois dias em Nova Delhi, na Índia, deixando o país anfitrião com apenas uma nota da presidência que expôs as divergências do grupo.
Teerã queria que o bloco de economias emergentes condenasse a guerra de Estados Unidos (EUA) e Israel contra o Irã e acusou os Emirados Árabes Unidos, aliados dos EUA, de envolvimento direto em operações militares contra o país.
O Irã atacou os Emirados Árabes Unidos com mísseis e drones diversas vezes desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.
“Houve opiniões divergentes entre alguns membros em relação à situação na região do Oriente Médio e na Ásia Ocidental”, afirmou a Índia no documento final.
Sem mencionar os Emirados Árabes Unidos, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, disse, em entrevista, que um membro do Brics vetou algumas partes da declaração.
“Não temos dificuldades com esse país em particular; eles não foram nosso alvo na guerra atual. Atacamos apenas bases e instalações militares americanas que, infelizmente, estão em território deles”, disse o chanceler iraniano, acrescentando que espera que a situação mude quando os líderes do Brics se reunirem ainda neste ano.
“Espero que, quando chegarmos à cúpula, eles cheguem a um bom entendimento de que o Irã é um vizinho, que temos que conviver, que convivemos há séculos e que continuaremos a conviver pelos séculos que virão.”
O Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.
Os membros do grupo manifestaram suas posições e compartilharam uma série de perspectivas, afirmou o comunicado da Índia.
Essas perspectivas variam desde a necessidade de uma resolução rápida da crise e o valor do diálogo e da diplomacia até o respeito à soberania e à integridade territorial, acrescentou.
Também foram discutidos a importância de se defender o direito internacional, garantir o comércio marítimo seguro e sem entraves pelas vias navegáveis internacionais e proteger a infraestrutura e as vidas civis, concluiu o comunicado.
Apelo à união
A nota informou que os ministros do Brics “lembraram que a Faixa de Gaza é parte inseparável do Território Palestino Ocupado”. Eles também destacaram a importância de unificar a Cisjordânia e a Faixa de Gaza sob a Autoridade Palestina e reafirmaram o direito do povo palestino à autodeterminação e a um Estado independente.
Um membro apresentou reservas sobre alguns aspectos da parte referente a Gaza, segundo a declaração, sem citar nomes.
A nota da Índia, como presidente do bloco em 2026, afirmou que os países-membros apelaram para que o mundo em desenvolvimento permaneça unido para enfrentar os desafios globais.
“Eles ressaltaram a importância do Sul Global como motor de mudanças positivas”.
A região enfrenta desafios internacionais que vão desde crescentes tensões geopolíticas a dificuldades econômicas, mudanças tecnológicas, medidas protecionistas e pressões migratórias.
Brics
Atualmente, o bloco conta com 11 países-membros e dez países-parceiros.
Países-membros: África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Índia, Irã e Rússia.
Países-parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã.
A modalidade país-parceiro foi criada durante a Cúpula de Kazan, na Rússia, em outubro de 2024. Esses países são convidados a participar dos encontros e dos debates. A principal diferença entre as categorias é que apenas os países-membros têm poder de deliberação, ou seja, votar nos encontros, por exemplo, para referendar a declaração final.
